Voo no
tempo ou no espaço, não sei bem… talvez até recue nos dois e talvez até seja
isso que me leva àquela pequena divisão onde ainda hoje vejo os antigos móveis
verdes, as fotos nas paredes e todas as minha bonecas e barbies que hoje estão
guardadas numa caixinha no sótão.
Às vezes
tenho vontade de voltar a esses tempos, tenho saudades minhas, com aquele
cabelo à tijela, aqueles olhos enormes azuis acinzentados e daquele sorrisão
que tinha sempre, mesmo sem motivo aparente. Tenho saudade do tempo em que o
meu maior problema era somente não poder crescer mais depressa, em que sonhava
ter 15 anos ou até 18. Se pudesse escolher um espaço que me fez feliz, escolheria
o passado, ao lado de todas as bonecas com quem cresci, das imensas roupas e da
história das suas vidas que mudavam de todas as vezes que voltava a brincar com
elas.
Acho que
não podia ter sido mais feliz, tirando aqueles dias em que me chateava com a
Jéssica porque o namorado que partilhávamos dava mais atenção a uma do que a
outra ou quando no dia dos namorados, a minha prenda ou a dela eram melhores e
ficávamos com uma imensidão de ciúmes estúpidos que hoje são motivo de muitos
risos.
Só de
pensar, que nesse tempo queria crescer, mesmo quando as pessoas me diziam que quando
isso acontecesse iria querer voltar atrás... achava ridículo, afinal quem não
queria deixar de ser uma simples pequena?
De
repente, tudo muda ou tudo mudou. O verde do meu quarto passou a preto e
branco, mais claro, mais simples, mais meu… A cama, tal como as roupas e os
roupeiros ficaram maiores e as fotos, ainda que guardadas já não continuam nas
paredes.
Cresci,
mudei e como tal muitas outras coisas mudaram na minha vida. Ainda assim, os
momentos não se esquecem e as recordações prevalecem. Continuam as fotos a
passar constantemente na moldura digital, as colunas sempre ligadas com música
a tocar, um enorme espelho e o meu nome em grande plano na parede branca.
Hoje,
considero-me realizada, por ter a família ideal, o namorado perfeito que faz
tudo por mim e por poder contar a companhia das melhores amigas do mundo, que
independentemente de tudo estão sempre lá. A Catarina todos os dias tem
episódios novos para contar e até já foge quando somos sinceras demais com ela,
mas acaba por voltar. Sabe que as patas (que é como nos tratamos) têm sempre
razão. E a Daniela, que apesar de continuar a pensar que não sei, acha que tem
menos valor para mim porque à hora de almoço não é a ela que mando uma mensagem
a perguntar onde estão.
Continuam a
haver momentos ridículos, dos quais ainda me vou rir mais tarde, espero que na
companhia de todas as pessoas que hoje continuam ao meu lado.
Mas, nada
poderia ser sem o futuro e como tal também me imagino a encaixotar o que de
mais importante guardo para quando chegar o meu tempo e o meu rumo mudar
realizar alguns dos meus sonhos. Penso que apesar de tudo ninguém vive sem
amanhã e não acredito que haja alguém que não queira as noites da vida
universitária, um carro para ir com as amigas atrás para todo o lado e a sua
própria casa, a sua própria independência, nunca esquecendo quem fez de nós
aquilo que somos.
Hoje, sei
que o lugar ideal se constrói com as recordações do passado, vivendo os
momentos do presente e ansiando aquilo que ainda podemos construir e conquistar
no futuro.
Por isso, não tenhas medo de olhar para trás,
porque se te orgulhas daquilo que és hoje, terás orgulho naquilo que te tornou
desta mesma maneira.
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